quinta-feira, 4 de agosto de 2016

- Crônica -

Banalidade do mal

* Manoel Hygino

Com seus oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados, grande área de fronteira e um litoral marítimo extenso, o Brasil está em permanente inquietação pela violência com que é agredido de todos os lados. O cidadão vive encurralado, prisioneiro dentro de sua casa, evidentemente os que a têm. Em meio a inúmeros estudos que se fizeram e se fazem, certamente se terá chegado a conclusões corretas sobre as causas do mal e de como exorcizá-lo. O Brasil é vítima e refém da violência, a que não falta a cobertura da imprensa, perigosa sem dúvida, dos fatos que se registram em quaisquer dia, hora e local, ao preço de vidas, sangue, lágrimas.

Li, há pouco, o sucinto relato de uma repórter da afiliada da TV Globo na Paraíba, assaltada no dia 13, à noite, na Universidade Federal de Campina Grande, enquanto fazia matéria sobre a insegurança no campus. A repórter falava ao celular quando o assaltante apareceu, tomou-lhe o aparelho à força e fugiu. Um dia antes, alunas da universidade sofreram um arrastão na área.      

Permitimos que o crime invadisse e, até, dominasse regiões das cidades, dos estados e do país. Violência e droga de mãos dadas contra a nação e o cidadão. Tenho minhas dúvidas se é possível a recuperação. Como, quando e a que preço?

De janeiro até meados deste sétimo mês do ano, foram explodidos no mínimo 71 caixas eletrônicos em Minas Gerais, representando um ataque a cada dois dias. Não figuram somente grandes cidades. Pelo contrário, são alvos todas as regiões do Estado, com predominância as pequenas cidades, onde as agências postais dos Correios são atrativos para as quadrilhas.

As Olimpíadas, trazidas para cá demagógica e lamentavelmente, aduzem nova carga de preocupação. Brasileiro do grupo terrorista Estado Islâmico pode estar planejando ataque no mês que vem contra a delegação da França. Quatro assaltantes, como aconteceu em Istambul, com armas pesadas explodiram caixas no Aeroporto de Montes Claros, assustaram bairros próximos... e fugiram. Que país é este?

São perguntas que se fazem, quando se toma conhecimento de tantas ignomínias. Um crime abalou Pirapora. Criança de dez meses foi executada com um tiro na cabeça por homens que chegaram à sua casa à procura do pai, envolvido no tráfico. O pai estava preso.

Também no Norte de Minas, perto de Buenópolis (de excelente água potável, como avaliava meu avô), menina de dez anos foi estuprada e morta e teve o coração arrancado. O homicida antes fora preso por crime de morte, estupro e roubo, mas conseguiu evadir-se. Há o que pensar e muito a agir.

Temos de raciocinar, como o fez Luiz Felipe Pondé, intelectual de coragem. Referindo-se ao mal, como sentido pela filósofa Hannah Arendt, ela se manifestou: "A banalidade do mal marca o mal não como uma profundidade, como tradição bíblica, mas como uma espécie de fungo que se espalha pelo mundo sem grandes profundidades ou sofrimento moral, aniquilando qualquer reação moral que importa. A banalidade do mal convive bem com os horrores, desde que a janta seja servida na hora."



* Membro da Academia Mineira de Letras  

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