quarta-feira, 10 de agosto de 2016

- Crônica -

De volta para o futuro

*Wagner Gomes


Temer equilibra-se na corda bamba da ética e da transparência. Está obrigado a conviver com alguns auxiliares diretos que o canhenho popular vincula àquela estrutura viciada em trocar a responsabilidade fiscal pelo amadorismo econômico e que incorporou o escândalo a uma rotina de trabalho. Dilma Rousseff, em seu exilado governo, continua sem perceber que o seu estilo centralizador de comandar tornou-a, a um só tempo, chefe da Casa Civil, ministra da Justiça, da Fazenda, do Planejamento, dos Transportes, do Bem-Estar Social, bem como presidente de tantos outros órgãos do governo, como o BNDES, o BB e a CEF. Amparada em uma gastança inconsequente, ela se reelegeu, o que parecia ser o seu objetivo essencial, senão único. O marqueteiro João Santana, agora capitulado, lança mais luzes sobre esse foco.

Em meio a essa turbulência, o curso irreversível da história busca novos atores para redesenhá-lo, enquanto segue o governo interino do Michel Temer caminhando para o seu 3º mês, sem ter encontrado o caminho de volta para o futuro. Até que se conclua o processo de impeachment, os agentes econômicos estão de olho nos sinais do que possa vir por aí. A sensação de que estamos, a um só tempo, percorrendo um caminho e o pavimentando reduz, em muito, a velocidade do processo. Um sentimento de inquietude já começa a se alastrar. A Olimpíada, que deveria oferecer um amortecedor das tensões, divide o palco de nossas preocupações, notadamente com o receio de ameaças terroristas e, ao seu término, um elenco de medidas relevantes precisa ser tratado com urgência.

Se o resultado das próximas eleições municipais revelar que o brasileiro, finalmente, se deu conta do valor de seu voto para a construção de um Brasil melhor, tanto melhor. Isso pode robustecer a esperança de que, caso Temer seja efetivado e não seja picado pela mosca azul da reeleição, a situação tende a avançar com medidas mais corajosas e sem tantas concessões como as que ora presenciamos. Não me é crível imaginar a hipótese de que o impeachment não aconteça, mas é sempre bom ter em mente que quem disser o que vai acontecer nos próximos dias, pelo nível de nossa representação política em geral, está mentindo ou é mal informado. Como exemplo, vejam o episódio da cassação de Eduardo Cunha, que até pode não se efetivar, por falta de quórum. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, já manifestou sua oposição ao aumento de impostos, embora seja, a cada dia, mais evidente que eles virão em cascata, após o impeachment. Por isso mesmo deveria colocar em votação a proposta que cria um teto para os gastos públicos, em regime de urgência, e acelerar as tratativas para a reforma da Previdência.

No ano 2000, tínhamos 8 funcionários da ativa para cada aposentado. Projeta-se que essa correlação para o ano de 2060 seja inferior a dois para um. E todos nós sabemos que um sistema previdenciário, prudente e adequado, precisa ser atuarialmente sustentável. Pelo andar da carruagem, inclusive no que tange aos recentes e generosos aumentos salariais concedidos e no equacionamento da dívida dos estados, percebe-se que o ajuste fiscal deixa, aos poucos, de ser programático para se tornar, meramente, pragmático. O crédito, em crise pela sua má qualidade, já supera o índice de 50% do PIB. É o dobro dos 25% verificados em 2003 e abaixo dos 75% verificados nos países desenvolvidos. A CPMF ameaça voltar e se estender mais do que o prazo inicialmente estabelecido.

A questão trabalhista é outro problema quase insolúvel, diante da complexidade do custo Brasil. No entanto, ela sempre encontra os maiores obstáculos na intransigência de uma estrutura sindical burra e atrelada a partidos de esquerdas. O governo Temer que pretendia substituir o presidencialismo de transação pelo presidencialismo de transição vem, somente, executando um bem-sucedido gerenciamento de expectativas. Apenas por esta razão, as pessoas seguem confiantes de que a reconquista da estabilidade é possível, gerando uma esperança de que o crescimento possa voltar. Tomara que o presidente consiga se desvencilhar daqueles que o orbitam e que estejam, ainda, comprometidos com um passado pouco recomendável. Como toda boa novela tende a ter sua continuidade, passada essa fase do impeachment, só nos resta esperar pelos próximos e emocionantes capítulos, quer seja através da Operação Lava Jato ou no âmbito do TSE, que prossegue com o julgamento do mérito das ações que pedem a cassação da chapa Dilma Rousseff e Michel Temer.


* Administrador de empresas.

| TRANSLATE THIS PAGE |