segunda-feira, 22 de maio de 2017

Crônica

VERDAMARELO

Aristônio Canela*

O fado mal tocado mordiscava as cordas do bandolim, em tropeços, na taberna “OLHOS BREJEIROS”, no beco dos “BESOUROS” de uma Lisboa enfumaçada e misteriosa, acolchoada em fuxicos sobre as novas.

Dom Manuel faiscava olhos mirando uma Calicute repleta de riquezas, demonstrando fragilidades, expondo-se levianamente à sanha dos estômagos portugueses. Tendo como certas as vias lucrativas, o Rei recorreu aos Bancos Florentinos, num financiamento polpudo, apetrechando-se com treze caravelas, dez naus e armas suficientes para o sucesso da empreitada considerada de importância fundamental às finanças da Coroa.

Os marinheiros eram recrutados de uma forma bem própria, sem propor nenhuma despesa para o contratante e, dessa maneira, os presídios iam-se esvaziando, num fluxo intermitente de escória humana.  Somente os oficiais guardavam uma tênue vivência de convívio social, o que não dava ao fidalgo Pedro Álvares Cabral, comandante da Esquadra, nenhuma tranquilidade.

Seu secretário particular, Capitão Leonel Arizôto de Beirantes, com olhos acinzentados e frios, possuía uma cabeça pensante, calculadora de detalhes, todos eles sem nenhum escrúpulo. Tinha uma dívida eterna e, somente por ela, abrigava-se em uma fidelidade contestada, mas cumprida ao Fidalgo.Encarregado do recrutamento, rejeitou a presença de Crisálido Manjeirão de Jesus, seu desafeto de anos, por ser considerado indivíduo deslimitado nas loucuras e afeito a qualquer tipo de atitude para seu próprio proveito, além de ser acusado de envolvimento com magia negra.

O gajo tinha atentado contra a vida do filho do Capitão Arizôto, num sequestro com requinte de maldade, para arrancar-lhe os olhos azuis por encomenda de Ozára Macumbo, o filho do mal, feiticeiro mais famoso por suas atrocidades, nas línguas e temores lisboetas.

Não fosse a intervenção decisiva do Comandante Cabral, Arizôto, flor também nada cheirosa, não teria conseguido salvar o primogênito de garras tão poderosas, mas nada foi provado contra Crisálido Manjeirão e, quando se fez alardeada a aventura marítima, propôs-se a ela, sendo repelido com severidade, ceifando-lhe os anseios de riqueza. Indignado, Crisálido procurou Ozára e urdiram o plano mais macabro da história.

O Feiticeiro inicia comunicações frequentes com seus aliados do além, através de regalosos banquetes pantagruélicos, onde, após satisfazerem a gula com entranhas vivas de animais, deixa-se, num ápice, banhar-se em sangue de jovem virgem negra, segundo ele princesa legítima da etnia Fula.
Como se não bastasse tanta estupidez, na sétima e última noite, entrega-se a um contato sexual, abrindo-se em corola para a exploração de um falo em brasa, expelidor do sêmen da malignidade, engravidando-se para, no solstício próximo, parir um ser híbrido chamado “Mensageiro Trevoso”.

A criatura dotada de inteligência superior tornou-se, de repente, figura de destaque na esquadra oficial, aboletando-se na nau capitânia, levando consigo uma pequena caixa de marfim contento espíritos especializados em todo tipo possível e imaginário do mais puro mal.

A seleção tomou uma proporção tão destruidora que o próprio Ozára tremeu e, num último suspiro de humanidade, deixou cair apenas um pingo de um líquido verde e viscoso alentador de sonhos e futuros.

Por influência das trevas, ao chegarem ao largo das ilhas Canárias, a pasmaceira tomou conta dos navios, numa calmaria desavisada e descompreendida, proporcionando descabida derivação e, quando gaivotas sobrevoaram o céu da Gávea, o híbrido gritou: “TERRA À VISTA”, na exuberância do Monte Pascoal, em 22 de abril de 1500.

Nem bem pisaram o solo abençoado pelas angelitudes indígenas, o enviado abriu a caixa e libertou os leais representantes das desgraças e mazelas. Vendo derreterem-se numa gosma mau cheirosa, em átimo de revolta, conseguiu fechá-la, deixando por lá aquele verdezinho irrequieto para, depois, transformar-se numa fumaça negra, dissipada na natureza exuberante.

Não demorou muito, a insanidade tomou conta dos habitantes, prevalecendo o reinado da mais completa desavença. Então, caciques e pajés perderam seus ideais, vendendo-se uns aos outros; olvidando conceitos religiosos, padres e bispos envolveram-se em negociatas, sob os auspícios de Duques, Marqueses, Condes, Viscondes, Barões e Coronéis, numa fogueira de dar inveja aos foles dos infernos. Não demorou muito o aparecimento de novos personagens, trazendo com eles o vírus da corrupção revitalizado, doando ilusões a uma sociedade fragilizada por tanta dor. contaminando-a de maneira contumaz e insidiosa.

Assim, no raiar de tempos novos, os Fernandos, Emílios, Marcelos, Aécios, Dulcídios, Sarneis, Renans, Michéis, Dilmas, Lulas, todos aquartelados nas fortalezas das Odebrecht e outras tantas, consumiram, execraram, massacraram, exauriram terra e povo e, TODOS ELES, sem exceção, sacudiram violentamente a pequena caixa de marfim, tentando expulsar o PINGO DE ESPERANÇA, convicto e tenazmente agarrado aos valores pétreos de um deus brasileiro, cantando com sua voz infantil, acalentadora e desafiante, a linda marchinha de carnaval, tão nossa, tão popular, tão brasileira, cheia de confetes e serpentinas, emoldurada de ingênua alegria, pelos campos, ruas e alcovas: “DAQUI NÃO SAIO, DAQUI NINGUÉM ME TIRA!...”


Membro da Academia Montes-clarense de Letras/AML*

| TRANSLATE THIS PAGE |