domingo, 30 de julho de 2017

- CRÔNICA -

A Igrejinha do Rosário ou dos Catopê
-Agosto/2016-

* Raquel Mendonça


O livro "O Patrimônio Histórico de Montes Claros", de Milene Antonieta Coutinho Maurício, traz nas páginas 43 e 44 o seguinte comentário de Nelson Vianna, extraído do "Efemérides Montes-clarenses": Em 22 de maio de 1839, em resposta aos devotos de Nossa Senhora do Rosário, que requeriam lugar para a edificação do templo, o Fiscal da Câmara de Montes Claros de Formigas recomendou que se deferisse o pedido, ficando a rua com 45 palmos de largura, devendo a nova via ter, em sua entrada, nessa praça, uma direção reta. A igreja que se pretendia construir era a do Rosário, que permaneceu, por mais de um século, no início da atual avenida Cel. Prates, naquele tempo, rua do Jatobá. Trazia indevidamente, na fachada, a data 1834 sobre a porta principal. Foi condenada pela Prefeitura Municipal de Montes Claros, que a demoliu em 1960." Há controvérsia: a demolição se deu mesmo em 1960 ou 1962?!

Há quem afirme que a sua demolição se deu em 1962, para dar livre trânsito à hoje Avenida Coronel Prates. "E a Festa de Agosto ficou sem sua Igreja...", lamentou profundamente Hermes Augusto de Paula, o maior apoiador, verdadeiro esteio das Festas de Agosto de Montes Claros de todos os tempos, ao ponto de os grupos terem criado um belo cântico em sua homenagem:

                    "Viva Dr. Hermes
                     Dr. Hermes de Paula
                     Foi ele que construiu
                     A Igrejinha do Rosário." Oia lá!...

Assim, graças à intensa batalha do grande historiador e folclorista, Hermes de Paula, edificou-se uma nova capela, com linhas modernas, inspirada nas barcas dos Marujos ou Marujada, a Nau Catarineta, construída pelos próprios Catopês.

O então Prefeito, Simeão Ribeiro Pires (grande historiador, arqueólogo e escritor, membro-fundador e presidente do antigo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Montes Claros - COMPHAC, junto a nós, Virgílio Abreu de Paula e Arthur Jardim de Castro Gomes) decidira pela demolição da Igrejinha do Rosário, porque ela, na sua opinião, "atravessava" a hoje avenida, com Hermes se colocando ferrenhamente contra a demolição da Capela. Como não conseguiu "vencer a guerra" travada com a Prefeitura, pela sua conservação, obteve êxito, por outro lado, ao convencer o Prefeito da necessidade de construção de uma nova igreja no mesmo local - ou quase - para que as Festas de Agosto não acabassem!... E alcançou seu objetivo, chegando até mesmo a "perdoar" Simeão, pela boa vontade por ele demonstrada ao aceitar a sugestão da construção da nova igrejinha, o que foi registrado na segunda edição de seu livro "Montes Claros, sua história, sua gente, seus costumes".

A ideia da edificação de uma Capela nos moldes de uma barca de Marujos foi aceita por Simeão, cuja construção teve as mãos motivadas e hábeis de membros do 1° Grupo de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, chefiado pelo grande Mestre Zanza, como pedreiros e serventes de pedreiro, incluído o próprio Zanza, que já era Mestre de Catopê havia muito tempo.

O autor do projeto foi o extraordinário arquiteto Dr. Mércio Guimarães, sobrinho, segundo a sua filha Érika e também grande arquiteta e urbanista, do famoso construtor Chiquinho Guimarães (da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida). O Engenheiro responsável? João Carlos Sobreira, com Zeca Guimarães cuidando da parte administrativa. Era o chamado "Mestre de Obras", conforme Érika, que, por sinal, foi ela a assinar, junto a Clarissa de Oliveira Neves, o admirável projeto, fase a fase, de restauração ou restauro do Sobrado da Escola Normal/FAFIL ("Prédio da FAFIL"), hoje Museu Regional do Norte de Minas.

Há quem afirme que Padre Dudu queria a reconstrução da igreja tal qual a antiga e que Hermes a queria moderna, em homenagem às Festas. Ganhou a ideia da igreja moderna, usando metal e alvenaria. Como grandes apoiadores do projeto da nova Capela são citados ainda os nomes de Toninho Rebello, Edgar Martins Pereira, que era também grande defensor dos Catopês, tendo manifestado amplamente a sua profunda admiração pelas Festas de Agosto em reunião no antigo Clube Montes Claros, de que participava o então Governador de Minas e muitas outras autoridades; Ademar Santos, que doou a ferragem e o cimento; Pedro Santos e muitos outros fãs das festas ou devotos de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e do Divino Espírito Santo!...

A igreja permaneceu inacabada por décadas, porque Mércio Guimarães a queria nos mesmos moldes da Igrejinha de São Francisco, na região da Pampulha, de Belo Horizonte, com mosaicos nas fachadas frontal e laterais. Para Érika Neves Guimarães, o projeto original de seu pai foi inteiramente respeitado, não descaracterizado, com a capela recebendo acabamento sóbrio e adequado. 
                             
Situada na Praça Portugal (Avenida Coronel Prates), a Igrejinha do Rosário foi finalmente restaurada, tendo à frente o nome do Padre Fernando Soares de Almeida, o novo "Padre dos Catopês"! Os autores do projeto foram Gil Rocha e Daniel Ortiga, com Daniel tendo sido o seu Responsável Técnico. No fundo da Igreja, foi feito painel em cerâmica, com base em croqui do arquiteto Mércio, conforme a filha Érika, pela artista Conceição Melo e equipe.

A Igrejinha do Rosário ou Igrejinha dos Catopês ainda precisa da ajuda financeira de todos para término das obras e devida restauração do Cruzeiro, especialmente após ser vítima de assaltos, tendo um dos marginais levado o valor da coleta, após a Missa de Encerramento das Festas, quando, durante a Homilia, o Padre Fernando solicitou dos presentes ajuda generosa, a fim de poder concluir as obras da Capela, lembrando ainda a necessidade de restauração do Cruzeiro!

Que todos possam estender a mão e o coração à Igrejinha de Nossa Senhora do Rosário! E viva a para sempre Igreja dos Catopês, viva!...


* Promotora Cultural, Historiadora, Jornalista e Escritora

Gerente de Preservação e Promoção do Patrimônio Cultural de Montes Claros/Secretaria Municipal de Cultura/Prefeitura de Montes Claros  

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